Música
Tema desse conto:
Na
Luz das Estrelas
“Sound
the bugle now – play it just for me
As
the seasons change – remember how I used to be…”
“Soe
o clarim agora - Toque apenas para mim
Conforme as
estações mudam - Lembre-se de como eu costumava ser...”
Era
mais uma noite simples, dessas em que nada acontece.
As
horas seguiam, em seus minutos e segundos desproporcionais aos pensamentos que
não paravam de circundar a mente dela.
Ela,
que menina em sua adolescência, espiava a vida.
As
pessoas lá embaixo seguiam suas rotinas, em seus carros... Celas de ferro, onde
se fecham por vontade própria e esquecem que seus corpos já são celas o
suficiente para toda a vida.
Cada
suspiro de sua alma, ela oferta as poucas estrelas expostas no firmamento,
enevoadas com densas nuvens negras de tempestade e poluição. Assim como uma ave
negra corta os céus, ela deseja estranhamente fazer o mesmo.
“Now
I can't go on – I can't even start
I've got nothing left – just an
empty heart”
“Agora eu não posso
continuar - Nem mesmo começar
Não tenho nada
restando - Apenas um coração vazio”
Sentada,
com suas pernas balançando no espaço, o parapeito parece cada vez mais
promissor e tentador a medida que os olhos castanhos focam as luzes da cidade
lá embaixo...
Recostada
em uma singela parede fria daquele edifício, ela toma o último gole da bebida
amarga e sem valor, que faz com que seus lábios se contorçam em desaprovação...
A Vida não poderia ser mais linda?
“I'm
a soldier – wounded so I must give up the fight”
“Eu sou um soldado
- Ferido, então eu devo desistir da luta”
Ela
ri suavemente, como a brisa que brinca nos cabelos cacheados, e atira a garrafa
num canto do “telhado” , admirando a beleza dos cacos explodindo em nuances de
brilho claro que refletiam as luzes da cidade.
Seus
olhos se apertam e ela volta a olhar para o abismo diante de seus pequenos pés.
Um suspiro escapa por seus lábios e devagar ela abraça os joelhos e deita seu
rosto contra eles, mordendo os lábios e deixando lágrimas claras escorrem pelo
sorriso juvenil.
Havia
tanto para ser dito... tanto para ser mostrado a ele...
O
coração é uma armadilha traiçoeira que nos permite sentir coisas que um dia
iremos desejar nunca ter sentindo e aquele era um dia que ela nunca queria ter
que sentir.
“There's nothing more for me -
lead me away...
Or leave me lying here”
“Não há nada mais
para mim - Irei me afastar...
Ou deixe-me deitado
aqui...”
Despedir-se
nunca é fácil, não quando se é jovem, não quando a vida é roubada de modo tão
simples e rápido como só uma bala perdida pode fazer. Como é fácil o sangue escorrer do ferimento
aberto, como é fácil o corpo tombar
fraco num chão de cimento duro e perder a noção do mundo a sua volta...
Não
é fácil se despedir, quando se escuta os gritos, quando as palavras se perdem no choro, no
desespero...
De
tentar commãos afoitas tentar conter o sangue que escorria.
“Then from on high – somewhere
in the distance
There's a voice that calls –
remember who you are
If you lose yourself – your
courage soon will follow
So be strong tonight – remember
who you are”
“Então
de cima - em algum lugar distante
Há uma voz que
chama - lembre-se de quem você é
Se perder a si
mesmo - sua coragem logo o seguirá
Seja forte esta
noite - lembre-se de quem você é”
Ele
havia sorrido para ela, havia dito palavras que ela jamais esqueceria...
Havia
o som de gritos ainda zunindo por todos os lados e os tiros... Havia o som de
sirenes de polícia, bombeiros, ambulâncias...
Havia
tanta coisa que ela queria esquecer, que ela queria falar, gritar, mas a mente,
essa mente cruel e bandida que amava torturá-la continuava a lhe mostrar o
sorriso dele, com as palavras dele...
“-Continue
Vivendo”
Apesar
daquelas palavras, o abismo urbano era tentador... As luzes de carros indo e
vindo na avenida agitada também, assim como a luz das poucas estrelas que
ofuscavam distantes, algumas já mortas mas que ainda para nós tolos humanos,
chegam na forma de luz brilhante e acolhedora.
Estrelas
que ele tanto apreciava, que falava tão entuasiasmado com ela todas as noites,
ensinando-lhe constelações e tantas coisas mais.
Estrelas
que continuavam mesmo após sua morte, brilhando no firmamento escuro, trazendo
luz para noites como aquelas.
Trariam
elas luz para o coração que pulsava violentamente por conta da dor da perda?
“Then from on high – somewhere
in the distance
There's a voice that calls –
remember who you are
If you lose yourself – your
courage soon will follow
So be strong tonight – remember
who you are”
“Então
de cima - em algum lugar distante
Há uma voz que
chama - lembre-se de quem você é
Se perder a si
mesmo - sua coragem logo o seguirá
Seja forte esta
noite - lembre-se de quem você é”
Raquel
continuava olhando as estrelas, e notou que elas pareciam cintilar mais
fortemente. Ela não sabia se era por conta das lágrimas em seus olhos que tinha
tal impressão, mas ela sabia que a morte não lhe traria nada. De certa forma
sentia isso na luz daquelas estrelas que continuavam luzindo, mesmo entre as
densas nuvens da cidade grande.
Ela
sabia que a vida talvez lhe traria alguma coisa, queria acreditar nisso. Queria
acreditar que ele estava ali em cima, na luz daquelas estrelas.
Então
esticou sua mão para cima, como se pudesse tocar uma das estrelas e desejou do
fundo de seu coração, ser como as estrelas... Mortas , mas que ainda ofereciam
seu brilho para os outros...
A
jovem desceu do parapeito do edifício, calçando seus all stars roxo com estrelinhas
pink, sentindo a brisa menina acariciando gentilmente sua pele. Ela sorriu
triste e pisou firme de cabeça erguida seguindo em frente.
“Ya
you're a soldier now – fighting in a battle
To be free once more...
Ya that's worth fighting for”
“Sim, você é um
soldado agora - lutando em uma batalha
Para estar livre
uma vez mais...
Sim , por isso vale
a pena lutar...”
A
vida era frágil, como ela presenciara alguns dias atrás, como no dia de hoje em
que ela enterrou seu melhor amigo, seu amor, seu irmão, seu pilar.
A
vida era muito frágil e ela sentia que era mais frágil ainda, e que estava
despedaçada como os cacos de vidro no canto da partede.
Mas
por mais raiva, dor que sentisse, o que havia acontecido não iria mudar... Como
não iria mudar o sentimento que ela sentia por ele.
Ela
agora entendia que a vida, mesmo sendo frágil, tinha que ser vivida... A noite, as estrelas, e a brisa diziam isso a
ela.
E
a voz de Antônio parecia vir com a mesma brisa, que parecia até mesmo
abraçá-la. Ouvia com a voz brincalhona de moleque que ele tinha.
“-Continue
Vivendo”
A brisa sussurrava em sua mente...
Ela
seguiu em frente, indo embora do telhado do edifico... Ela viveria...
Ela
seria forte e viveria por ela e por
Antônio. E quando adulta faria pessoas conhecerem quem ele foi, pois ela sempre
iria falar dele com carinho para os outros.
Raquel
correria para o futuro, tão forte quanto o vento, mais radiante do que as
estrelas, no céu nublado de São Paulo.
“Para
a esperança que nunca morre, para a tristeza que nunca parte”
“Luciene
– Luna”
2010